18/10/2009

Quem é deus em um mundo inventado?

Uma história simples na mão de Charlie Kaufman tem potencial para se tornar facilmente um pesadelo existencial. "Sinédoque, Nova York" poderia ser somente mais um filme sobre um homem de meia idade perdido entre o casamento falido e a carreira produtiva, mas à sombra de outros. Contudo, o roteiro de Kaufman vai além de qualquer clichê e, ao dirigir um filme pela primeira vez, sua sagacidade nos deixa desamparados enquanto o longa ganha contornos absurdos.

Nos primeiros minutos do longa somos apresentados a Caden Cotard, sua mulher e a filha de quatro anos que faz cocô verde, o primeiro contato com o absurdo do filme. O casamento de Cotard chegou ao fim e percebemos isso rapidamente, mas quando a esposa decide não retornar de Berlim após realizar uma exposição na cidade, somos pegos de surpresa. Após esse incidente, o hipocondríaco Caden mergulha na criação de uma peça autoral que seja capaz de demonstrar seu verdadeiro eu. A partir daí, Kaufman pisa no acelerador sem esperar que o espectador o acompanhe.

Sinédoque é uma figura de linguagem na qual o todo é substituído pela parte. Basicamente é isso que Cotard pretende fazer com sua peça em relação a Nova York. Ele quer encenar a cidade dentro de um galpão abandonado. E se esforça para isso por décadas a fio.

Vemos os personagens envelhecer, vemos relacionamentos começarem e terminarem, crianças nascem e são abandonadas. Cotard, sempre transitando entre amores e a solidão, não esquece sua filha. Infelizmente ela já o esqueceu. Talvez seja possível entender o que está se passando com algum auxílio da psicanálise freudiana, mas nunca li nada do autor austríaco.

Cotard tenta colocar ordem no caos que sua vida se tornou por meio da peça que nunca se esgota. Ele quer ser um deus presente e capaz de dar as cartas, mas o trabalho é cansativo. Assim como a vida o engoliu, a peça também o engole e somente nas últimas cenas ele perceberá que a vida é som e fúria, como já dizia o bardo inglês.

A medida que o filme avança, vamos mergulhando na absurda criação de Cotard, mas a realidade parece ir definhando pelo caminho. Em certo momento, uma tal de Ellen surge na peça. Ela parece ser um elemento chave para a compreensão do que acontece, mas não consegui captar isso muito bem. A cena final é belíssima e melancólica, não soube exatamente como reagir ao ver os créditos. Ainda não sei, mas tenho certeza de que "Sinédoque, Nova York" é uma peça rara do cinema atual.

Kaufman produziu uma obra polissêmica e bastante complexa. A obsessão pela morte, o medo da solidão, os problemas e as virtudes do amor, a guerra e a destruição, a família, a castração são temas explícitos do filme, mas as leituras possíveis são muitas. O diretor e roteirista nos oferece uma obra autoral que beira a transgressão e mostra como o cinema ainda pode se reinventar.

17/10/2009

Salve Geral ou por que o Brasil não vai entrar no oscar

Assim como Tropa de Elite, Salve Geral (Sérgio Rezende, 2009) é um filme de ação. Possui certa pretensão a tratado sociológico, mas isso passa quase despercebido. Se em 2008, Tropa de Elite ficou fora da indicação brasileira ao prêmio americano, Salve Geral tenta corrigir esse "erro". Infelizmente, o filme de Sérgio Rezende é bastante inferior ao longa que retrata o dia a dia dos policiais do BOPE.

Após uma briga, Rafa (Lee Thalor) atira em uma menina. A polícia o prende e duzentas pessoas são testemunhas do crime. Andréa Beltrão entra na história como Lúcia, a intrépida mãe que se fará de tudo para salvar o filho. Esse é o enredo que serve para nos colocar dentro da prisão e mostrar como o PCC organizou os ataques a São Paulo em 2006. Vemos Lúcia se metendo com todo o tipo de mal elementos do crime organizado em uma tentativa pífia de conseguir ajuda para o filho.

Entretanto, a relação mãe e filho é um dos primeiros problemas que se nota. Afinal, como uma mãe que deseja tanto tirar o filho da prisão deixa de visitá-lo por três semanas para ter uma relação com o "professor", um dos comandantes do PCC? A relação entre Lúcia e o "professor" também é duvidosa. Tudo começa de forma inexplicada, com algo que parece mais uma tentativa de estupro que o florecer de um amor e acaba da forma mais esperada possível.

Nenhum dos personagens é bem desenvolvido e as relações são muito superficiais. Outro problema são as interpretações, pois até mesmo Andréa Beltrão, um dos nomes de peso do longa, não parece se esforçar para se tornar Lúcia. Parece que a atriz entende como interpretação fazer cara de choro durante 90% do filme.

Sabemos que a realidade carcerária do país é desumana, com presídios abarrotados de gente e sem as mínimas condições de funcionamento. No entanto, criar o caos na cidade e assassinar milhares de policiais não é a melhor forma de fazer reivindicações. Quando Lúcia afirma para a irmã que nem todos que estão presos são desalmados sem coração, o filme perde qualquer força documental.

Salve Geral é o indicado brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro para 2010. Duvido muito que consiga uma indicação oficial e entre na disputa. A explicação é simples: o filme é fraco, possui um roteiro simplista e seu conteúdo é superficial. O país tem produzido muitos filmes de qualidade, ultimamente, mas parece que o grande referencial para quem merece prêmios ainda é o tamanho do orçamento.

05/10/2009

O veludo azul se abre para o público e então vemos uma figura dourada. A banda está em segundo plano, mas terá um papel importante no desenrolar da performance.

Posando sobre um sofá, Ney de Souza Pereira, fantasiado com roupas douradas, máscara e muitos adornos, iniciou o show “Inclassificáveis”. “O tempo não pára” foi apresentada as milhares de pessoas que prestigiam o local.

No palco, o artista se transforma em uma criatura sem sexo, sem idade, que age apenas em favor de sua arte. Dizer que aquilo que os campo-grandenses presenciaram foi um show é diminuir o tamanho do evento.

Ney interpreta as canções como se fosse um personagem que encarna cada verso. Ele dança, gesticula, troca de roupas, veste colares, fica nu e provoca o público. Encenação mistura-se com verdade. É inclassificável.

O repertório foi extenso e trouxe composições de Cazuza, Pedro Luís, Caetano Veloso, além da inusitada “Veja bem, meu bem” de Marcelo Camelo, que na voz de Ney Matogrosso ganha força incrível. Contestador, o artista brinca com convenções e desconstrói visões engessadas.

Com seu figurino andrógeno, Ney imita o ato sexual e passa despercebido pela platéia. Mais tarde geme como se chegasse ao ápice do coito. Cada vez que tira ou coloca um colar ou até mesmo a pequena sunga, seus gestos são libidinosos e seu rosto se enche de prazer. Aos 68 anos, ele explora seu corpo sem medo.

Mas a sexualidade não é a única forma de provocar a platéia. A interpretação de “Cavaleiro de Aruanda”, com referências a umbanda, é capaz de arrepiar. Essa é a primeira canção apresentada após o artista tirar sua roupa e aparecer diante do público vestindo apenas um macacão transparente, uma pequena sunga dourada, além dos colares e adornos.

Após algumas músicas, Ney canta “Ode aos ratos” e com ela brinca de deus. Ao final da música, uma cruz feita de luz surge no fundo do palco, crucificando o cantor em meio ao êxtase. Ela abre espaço para a música que dá título ao espetáculo, “Inclassificáveis”.

Unido pela primeira vez Ney e Emilio Carrera, integrante do “Secos e Molhados”, grupo em que iniciou sua carreira, a banda é um elemento importante do show. Quase todos os integrantes fazem dueto com o artista. “Inclassificáveis” foi a primeira parceria entre Ney e uma banda de rock.

O Governo do Estado acertou ao trazer alguém do peso de Ney Matogrosso para cantar no aniversário do projeto Canta MS. Quem esteve no parque durante esse domingo, teve uma experiência inesquecível presenciando um dos mais originais artistas brasileiros.

02/09/2009

Arraste-me para o inferno

Arraste-me para o inferno’ (Drag me to hell, 2009) é o novo filme de Sam Raimi. Você provavelmente o conhece por seu trabalho na direção da trilogia Homem-Aranha. Mas ele já se aventurou pelas terras obscuras do medo, sangue e risos nervosos com os três filmes de ‘A morte do Demônio’ (Evil Dead, 1981). Sua volta ao cinema de horror é uma grata surpresa.

Escrito em uma parceria de irmãos, o próprio Sam Raimi e o caçula Ivan Raimi, o roteiro conta a história da jovem analista de crédito Christine Brown que, na tentativa de ser bem vista pelo chefe e conseguir uma promoção no banco, não estende a hipoteca de uma velha cigana. Enraivecida, a mulher lança uma maldição sobre a moça. Já conhecemos os efeitos da maldição, graças ao breve prólogo do filme. Coisas estranhas passam a acontecer com Christine e sua vida se torna uma bagunça.

Não é um clássico do gênero, mas um filme divertido que consegue entreter e assustar durante seus 99 minutos de duração. Utilizando situações escatológicas, como a luta no carro entre Christine e a cigana, auxiliadas por efeitos visuais nojentos, o longa não se leva a sério. Raimi sabe que tanto o riso, quanto o horror são necessários para a diversão.

Se fosse um projeto “sério”, o diretor poderia explorar alguns pontos como a briga entre ciência e paranormalidade ou a loucura diante do absurdo em que Christine está metida. Entretanto, esse não é o objetivo. Sente-se na poltrona, assista ao filme, lembre de alguns clássicos de terror B e fique feliz por assistir um filme rápido com aquela boa história envolvendo ciganos, espíritos do mal, palavras em outros idiomas, gente esquisita e uma garota bonita.

17/08/2009

arte.

partindo de várias leituras, defino arte como a apropriação ou criação de um objeto que possui como único propósito a fruição estética. logo, arte não possui função alguma na sociedade e daí surge sua beleza, e criando um paradoxo, sua própria necessidade. é um objeto tornado expressão, contendo algum significado implícito que nasce da recriação realizada pelo fruidor.

01/07/2009

O Sarney deve ter tanta culpa quanto vários outros senadores. Esse é o problema, os outros também são culpados. Ele deve ser afastado, mas os outros também devem ser punidos. Collor, Suplicy e vários usufruiram dos benefícios e favores que rolaram no senado. Não é apenas um que deve sair, mas quase todos, provavelmente.

30/06/2009

Mais uma pro além

E a última vítima de junho de 2009 é Pina Baush, a famosa bailarina e coreógrafa alemã. Apesar de ter se apresentado no último domingo em uma ópera, Baush faleceu nesta manhã, cinco dias após o diagnóstico de um câncer. Vai ver ela se suicidou pra evitar os sofrimentos desnecessários provocados pelo câncer ou foram complicações da doença, não sei. E não interessa. Mais um evento estranho para esse mês que já conta com a morte de Wacko Jacko, Farrah Fawcet, a anônima do Irã, o golpe de estado em Honduras e quase incluiu a queda do voo 447. Quanta coisa, né?

Mentiras por milhões de dólares

São muitos os críticos que declaram o fim da arte. Alguns, como Arthur Danto, veem nisso o grande salto da manifestação artística, pois agora a arte está em todos os lugares, transfigurando lugares comuns. Outros entendem esse fim como uma morte mesmo, a decadência dos preceitos e valores estéticos. Indiferente a esse pensamentos, acredito que a arte não morreu, mas vulgarizou-se. Mesmo que essa vulgarização signifique poder vender um objeto artístico por 12 milhões de doletas. Estou pensando nos "grandes" artistas plásticos do nosso tempo, os famigerados Damien Hirst, Beatriz Milhazes e Romero Brito, entre outros. Esses nomes me chamam a atenção por dois motivos: a popularidade de seus nomes e a falta de propostas estéticas que suas obras explicitam.

Não entendo muito bem o que as pessoas veem nesses engôdos de arte contemporânea tão superficiais quando a tigela de leite dos gatos, não os meus, claro. Hoje assisti a uma discussão sobre o trabalho de Brito. Descobri que ao seu nome estão ligados movimentos como o cubismo e a pop art. Picasso e Lichtenstein se reviram no túmulo. Acho a arte de Romero Brito tão inócua quanto a de Beatriz Milhazes, com suas colagens ultra coloridas e senseless, assim como os tubarões e caveiras de Hirst. A vulgaridade de suas obras é um anúncio do fim e o culto popular que se criou sobre esses nomes o atestado de óbito.


Sei que devo parecer elitista, mas não, não é isso. Muito pelo contrário, acho absurdo os valores pagos por obras desses artistas plásticos que não significam nada na perspectiva da história da arte. Na Carta Capital dessa semana, Mino Carta assinou um artigo sobre a fraude contemporânea da arte e da culinária molecular. Concordo com ele em alguns aspectos, como a crítica feita à Hirst, mas não concordo quando o autor propõe uma comparação entre o realista inglês William Turner e o contemporâneo Mark Rothko. O período que os separa torna a comparação vazia de qualquer sentido prático ou mesmo teórico. Entre o que havia de mais instigante na arte contemporânea, se encontravam artísticas como Rothko que apontavam os questionamentos conceituais e estéticos da pintura. Enquanto as artes renascentistas eram dotades de esmero técnico, as artes de meados do século XX possuiam esmero intelectual que não pode ser deixado de lado. Essa arte questionadora, surgida com o dadá de Duchamp e Tzara, chegou ao Brasil e deu grandes frutos como Oiticica, Lígia Clark, entre muitos outros.

Contudo, essa silly art produzida atualmente e vendida a preços escabrosos não possui nada de novo, não pretende revolucionar, questionar, nada. É feita para ser bonitinha e vendida a altos preços em um mercado de luxo. Romero Brito, Beatriz Milhazes, Damien Hirst e tantos outros, para mim, não fazem arte. São o mais puro exemplo de como o kitsch se apropriou da cultura. O que mais me irrita nisso é querer inserir esses artistas em escolas que, não duvido muito, eles provavelmente não sabem nem ao certo o que são. Se bem que eu acho que a Beatriz fez curso de artes plásticas, não que isso signifique algo, conheço um bom número de acéfalos que estão no curso. De qualquer forma, se ela é abstracionista, Kandinsky e Pollock são bichonas enrustidas.

ps: ainda não tenho uma opinião sobre Vik Muniz, outro popstar da arte contemporânea.


29/06/2009

De um lado, APCM. Do outro, fabricantes de produtos eletrônicos, celulares e notebooks. A coisa se complica quando percebemos que as empresas que fazem propaganda através da possibilidade de baixar mp3's e filmes são as mesmas que subsidiam o grupo criado para acabar com a pirataria no Brasil. Primeiro a Sony anunciou um celular capaz de rodar filmes em HD e com capacidade de não sei quantas mil músicas, agora acabo de ver no orkut a Dell argumentando que com o novo notebook da marca, pode ser feito o download de quantas músicas você quiser. Tem algo de estranho nessas campanhas ou é implicância minha?