25/12/2008

BOTES AO MAR, HOMENS

Ahab, tua loucura te consumirá! Talvez um dos personagens mais instigantes da literatura americana, talvez a simples opinião de um leigo que leu poucos livros, não importa. Apesar de ter me entediado com momentos de naturalismo exacerbado ou de descrições fisiológicas da baleia, o livro me ganhou em alguns capítulos. Como por exemplo, o último capítulo antes do início da caçada, em que Ahab prevendo seu fim, em um dos poucos instantes de razão, tenta explicar suas angústias para Starbuck, o primeiro imediato no navio. O capitão pede ao imediato que permaneça no navio enquanto os botes descem à caçada, uma ponta de humanidade brilha em meio à loucura monomaníaca de Ahab.
Mais interessante, porém em alguns momentos extremamente cansativo, é o estilo utilizado por Herman Melville. Do que se nota na tradução, o autor consegue equilibrar na narrativa a animação das caçadas, a excitação dos personagens, a loucura de alguns deles e o comedimento de Starbuck. Alguns trechos são escritos de forma insana, quando pontuados, utilizam-se apenas pontos de exclamação. Em outros, o texto segue lento.
Todo narrado em primeira pessoa pelo marinheiro Ishmael, quase não sabemos nada sobre ele. Os primeiros capítulos descrevem seus dias em terra, sua noite na estalagem, o dia em que conhece o ilhéu selvagem Queequeg, como ambos chegam ao navio Pequod, mas apenas nesses primeiros capítulos sabemos com detalhes dos passos de Ishmael.
A espera por Moby Dick, o monstro branco, é o que mais me prendeu ao livro. Cada detalhe que se ouve sobre o leviatã, cada informação sobre sua localização, cada história sobre a destruição que causa por onde passa, aumentam o mito que o cerca e faz com que a espera se torne mais e mais excitante. E a espera é longa, apenas nos últimos capítulos sabemos do paradeiro da baleia.

22/12/2008

TODAS AS CANÇÕES DE AMOR

Nos primeiros momentos do filme, se tem a impressão de que a história terá como centro os dramas e conflitos criados por um triângulo amoroso, principalmente, após ver que uma das personagens lê o livro Politics do inglês Adam Thirlwell, que tem como tema o mesmo assunto. Mas basta um acontecimento para que o rumo do filme siga em outra direção. Em Chansons d’amour (2007), o protagonista Ismael é afetado pela morte de sua namorada (ou esposa, isso não fica bem claro e nem importa) Julie.  A história se desenrola ao mostrar a forma como Ismael se adapta a este novo mundo que surge a sua frente.
Apesar do grande número de canções, belas por sinal, que são cantadas pelos próprios personagens, Christophe Honoré afirma que o filme não é um musical. As músicas estão ali apenas para ilustrar as angústias dos personagens que não sabem como devem se sentir em meio a confusão de sentimentos e emoções que os cercam. Não é apenas a morte de Julie que dá ritmo ao filme, mas a completa inaptidão de Ismael para lidar com tudo que acontece após a perda.
Outra vez, a cidade de Paris surge como uma das personagens no filme de Honoré. Se já se percebe o prazer que o diretor tem em filmar a capital em Dans Paris, nesse filme sua paixão pela cidade se torna ainda mais explícita. Mesmo sem mostrar os grandes cartões postais da cidade, Paris é filmada de forma íntima e acolhedora, envolvendo Ismael e todos que o cercam.
Mesmo quando surgem temas mais polêmicos no filme, como o homossexualismo, tudo é mostrado de forma tão íntima e humana que tudo se torna apenas mais um momento da vida de Ismael. E já estamos tão enternecidos pelo personagem que é impossível condená-lo por qualquer uma de suas ações.

21/12/2008

DON’T WALK AWAY. IN SILENCE.

Uma vida em preto e branco só poderia ser filmada em preto e branco. E talvez esse seja o motivo pelo qual o filme Control foi inteiramente filmado em tons de cinza. A já conhecida história do líder de uma das principais bandas inglesas, o Joy Division, é mostrada de forma direta e não poetizada no filme de Anton Corbijn.
Sem a necessidade de propagar o mito do leadsinger da banda, o filme tenta apresentar em seus 120 minutos, os conflitos que levaram Ian Curtis a se suicidar dias antes de viajar para os Estados Unidos com sua banda. Entre os amores que o cercaram e o vazio que o corroia, Curtis é apresentado de forma confusa. Um homem que não possui controle sobre os eventos que o cercam. Assim como o personagem, interpretado por Sam Riley, afirma em determinado momento do filme, ele não possui mais controle.
O interessante do filme é se focar na pessoa de Ian Curtis, sem a necessidade de explicar tudo o que o Joy Division significou e toda a revolução musical que acontecia naquele momento. O roteiro não tenta ser explicativo e várias referências de Ian Curtis surgem de forma rápida, como o show dos Sex Pistols ou seu gosto por David Bowie. O roteiro tem sacadas muito boas como a cena em que após sofrer um ataque epiléptico em meio a um show, o empresário da banda brinca dizendo que pelo menos ele não é o vocalista da banda The Fall (a queda). No filme 24 Hours Party People, o ator Sam Riley interpretou Mark E. Smith, o vocalist da referida banda.
Sem apelar para os clichês e as lendas do rock, Control apresenta bem a figura do ícone do pós-punk inglês que morreu jovem como sempre acreditou que deveria ser.