01/01/2009

UM OCEANO DE PALAVRAS E NENHUMA LÁGRIMA

É complicado ler histórias que versam sobre determinados momentos históricos quando você tem apenas o mínimo conhecimento necessário, que se restringe a conhecer nomes e lugares, sem saber exatamente o que se passou. Felizmente, em “A história do pranto” (Cosac&Naify, 2008) do argentino Alan Pauls, os fatos históricos surgem dispersos e como um grande pano de fundo para uma história maior e mais profunda. O autor de “O passado”, que foi adaptado para o cinema pelo brasileiro Hector Babenco, mergulha fundo na alma de um personagem infante que não chora, apesar da grande sensibilidade e da dor que lhe infesta a alma.
Não conhecemos o nome de quase nenhum dos personagens, mas isso não é um problema. Narrado em terceira pessoa, apesar do uso subjetivo da linguagem, conhecemos tudo que se passa dentro do personagem principal desde um episódio que ocorreu aos seus quatro anos. Pauls trabalha com longos parágrafos e frases entrecortadas, utilizando-se principalmente de vírgulas, criando uma sensação de confusão que permanece, mesmo depois de nos acostumarmos ao estilo do autor. O tempo também é um brinquedo maleável nas mãos de Alan Pauls que abre mão de uma narrativa cronológica, ligando todos os pontos do texto através de lembranças. Como se assistíssemos a uma fita vhs, o autor avança e rebobina o filme, mostrando vários eventos que cercaram o personagem e criaram suas angústias.
São oitenta e cinco páginas de imersão total na mente do garoto criado pela mãe solteira, na casa dos avós, que encontra o pai aos fins de semana, quando é levado a alguma piscina pública de Buenos Aires. Mas de repente, separados apenas por um parágrafo, viajamos vinte anos, quando o garoto já crescido é abordado pelo oligarca torturado que, em uma das melhores cenas da novela, lhe confidência seu sofrimento. Pois assim é o personagem, quando estão próximos, os adultos se desatam a contar os mais profundos segredos.
E assim o garoto que ouve, cresce. Mas sempre guardando para si, suas dores profundas e sua incapacidade de chorar. Apesar do estilo denso e complexo de Alan Pauls, que logo se transforma em um dos atrativos maiores da leitura, “A história do pranto” é uma novela para ser lida e relida, tamanho os significados a serem descobertos e as nuances do garoto que é apresentado e descrito pelo autor argentino Ricardo Piglia como um novo Bartleby, o maior dos personagens da literatura ocidental.

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