Há 17 anos, o jornalista e sociólogo Muniz Sodré publicou um estudo sobre o poder exercido pela televisão nos indivíduos e na sociedade chamado “A máquina de Narciso”. No início do livro, o autor cita uma situação interessante, na qual um adolescente é perguntado sobre o que gostaria de ver na televisão. A resposta é categórica, o garoto responde simplesmente: “Eu”. Daí surge o nome, Máquina de Narciso. Para quem não sabe, Narciso foi um personagem mitológico grego, um herói filho de deuses que sempre foi avisado de que para ter uma vida longa, ele jamais deveria contemplar a própria imagem. Contudo, ao beber água de um rio, Narciso se vê refletido e apaixona-se por sua própria imagem.
O garoto que quer se ver refletido entende o poder da televisão. Mas no século XXI, uma nova mídia substituiu esse poder mitológico representado pela televisão. E não apenas substituiu, mas democratizou-o de uma forma que a TV jamais conseguirá. A Internet com suas possibilidades infinitas de publicação e acesso, permitiu que o mundo se visse refletido e fosse visto com alcance igual ou maior que a televisão. E o que tudo isso tem a ver com as agruras de um fotógrafo?
Nos últimos anos, surgiram espaços dedicados a publicação de material pessoal como nunca se conheceu antes. Primeiro os blogs, então os fotologs que foram seguidos por Youtube e afins. Até mesmo sites em que podem ir ao ar vídeos pornográficos amadores surgiram. A necessidade de ser visto ganhou forma e nome, multiplicando-se como nunca. Aproveitando essa necessidade apareceram sites especializados em publicar fotos feitas em festas, shows e bares durante a noite. E é esse o motivo pelo qual esse texto está sendo escrito.
Nunca imaginei que esses sites fossem tão levados a sério até fazer parte de um. Uma necessidade movida simplesmente por motivos financeiros. Mas é importante aprender a rir das agruras da vida ou pelo menos tentar transformá-las em algo a nosso favor. Como não tenho idéia de como fazer, vou tentar desabafar um pouco, colocando pra fora todas as angústias que me cercam noite após noite de trabalho.
Existem pessoas e pessoas nos lugares em que vou fotografar, algumas querem apenas fotos para lembrar ou “eternizar” um determinado momento. Outras, no entanto, e são essas que me fazem odiar o mundo como ele é, são movidas pelo mesmo sentimento que fez o garoto responder que gostaria de ser visto na televisão.
Facilmente você descobre quem são essas pessoas, elas são avistadas de longe. Quando percebem que uma câmera se aproxima, se arrumam, mexem no cabelo, perguntam para as amigas se estão bem vestidas e, caso você não fale com elas, elas te perseguirão até conseguirem a tão almejada foto. Elas são como as fúrias que perseguiram Orpheu e representam tudo que deveria não existir na sociedade. Em outras palavras, são as pessoas idiotas, cheias de si, que acham que o mundo foi feito para elas e que passarão a vida sem abrir um livro, ou abrirão, mas vão morrer sem saber que existe mais coisa além de livros de auto-ajuda.
Claro, estou escrevendo esse texto com princípios narcisísticos também. Se me julgo superior a essas pessoas, o faço simplesmente por questões efêmeras e sem qualquer valor real. Mas se eu não me considerar melhor que elas, quem será digno de tal façanha? Considerar-me superior a essas pessoas é o que me permite dormir e continue tentando ganhar algum dinheiro graças a esses impulsos vazios criados pela vontade se vir conhecido no mundo.
pronto pronto....
ResponderExcluirpassou, passou, acabaram suas penurias