
Acabo de chegar em casa após assistir o filme "O leitor", dirigido pelo inglês Stephen Daldry (As Horas) e devo dizer que me surpreendi. A história gira em torno do jovem Michael Berg, interpretado pelo estreante David Kross, e Hanna Schimtz (Kate Winslet), uma singela cobradora de trem alguns anos mais velha. Eles se conhecem durante um rápido encontro, onde Michael doente recebe seus cuidados. Após curado, o jovem volta ao apartamento de Hanna e assim se inicia o breve relacionamento entre os dois. A inexperiência e fragilidade emocial do garoto leva-o a se apaixonar pela cobradora, que permanece dura e fria.
Após alguns meses, Hanna desaparece sem deixar nenhum sinal. O reencontro entre os dois se dá em um tribunal, onde Michael, estudante de direito então, assiste o julgamento de seis guardas alemãs, entre elas, sua paixão.
Alternando passado e presente, a narrativa atravessa o tempo e em determinados momentos nos mostra a história de um jovem magoado e confuso, e em outros, um homem melancólico e corroído por seus segredos. Michael, então estudante, se vê dividido entre sua mágoa, sua vergonha, seu medo e suas incertezas diante do que está acontecendo com Hanna, a primeira mulher que amou.
Em determinado momento, Michael se divide entre visitar Hanna para discutir uma possibilidade da mulher se safar de uma condenação pesada ou deixá-la à sua própria sorte. Contudo, o que Hanna carrega sobre si não é um simples assassinato, ela carrega a culpa do povo alemão diante ao Holocausto. Michael desiste da visita e divide aqueles que assistem o filme. A desistência que pode ser marcada pelas mágoas de um jovem imaturo são substituídas pelas acusações de todo um povo contra aquela mulher.
De pontos como esse, o roteiro de David Hare baseado no livro de Bernhard Schlink, ganha sua força. Nunca se sabe ao certo o que move Michael, se suas mágoas ou à repulsa que o povo alemão criou contra todos que participaram do nazimo. Enquanto Hanna se via como apenas uma funcionária do partido, todos no tribunal a vêem como uma assassina. O jovem rapaz se perde entre as duas possibilidades.
O filme se revela um drama psicológico em que grandes questões se misturam sem oferecer uma resposta correta. Michael passa a vida inteira guardando o segredo que poderia ter salvo a vida de Hanna e isso o tortura, dividindo o espectador. Ao mesmo tempo em que vemos Hanna como uma pobre mulher que cumpria suas ordens, o filme nos mostra como aqueles que participaram do Holocausto não eram inocentes.
Quando o professor de Michael (interpretado por Bruno Ganz, o Hittler de "A queda) explica a diferença entre os códigos morais e as leis que regem nossa sociedade, fica clara a ambigüidade da condenação de Hanna e a incerteza do rapaz. Todas as outras mulheres que foram julgadas cometeram o mesmo crime que a cobradora, mas foi ela quem sofreu as mais pesadas consequências.
"O leitor" passeia bem as perguntas geradas pelo nazimo e as dúvidas do personagem central, que se sente culpado pelo destino de Hanna. Um filme denso e impactante, com sua narrativa clássica que não pretende ser bem digerido pelos espectadores, contudo, um filme que deve ser visto.
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