Desde a última quinta-feira, os diplomas de jornalismo emitidos em território nacional deixaram de ser necessários para a prática da profissão. O excelentíssimo e cretino Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Regional (STF), sempre apoiou o fim da regulamentação e suas sábias frases como a infeliz comparação entre jornalismo e culinária ou corte e costura, demonstram a capacidade do homem para presidir o STF. Lembremos que ele foi o homem que liberou o banqueiro Daniel Dantas.
Sempre fui a favor do fim das faculdades de comunicação. Sou jornalista formado, possuo registro profissional (apesar de não conseguir emprego) e desde o segundo semestre do curso percebi que jornalismo é uma trabalho técnico antes de qualquer coisa. Pode ser aprendido em dois anos ou menos. Como um professor meu afirmava, pode-se aprender tudo sobre jornalismo lendo quarenta ou cinquenta livros. O que realmente é necessário para ser um jornalista não é oferecido pela acadêmia. Ou melhor, é, e fica no prédio menos visitado pela maior parte dos meus colegas, a biblioteca.
Acredito que o conteúdo, aquilo que diferencia um bom jornalista de um medíocre qualquer, não é visto em sala de aula. Na ementa do curso estão disciplinas básicas como filosofia, antropologia cultural, sociologia, teorias da comunicação, ciências políticas e por ai vai, mas tudo é visto tão rápida e superficialmente que provavelmente só estão ali para cumprir a carga horária necessária para aprovação do MEC. Em Campo Grande devem se formar anualmente pelo menos 200 pessoas, o nosso jornalismo é capenga, dominado por duas grandes empresas e outros quatro ou cinco jornais medianos tentando sobreviver. O restante são jornais que existem graças a subsídios do governo. Os 200 formandos anuais mantém o mercado funcionando com até certa competitividade. Nem todos são bons jornalistas, nem mesmo regulares, mas fazem o seu trabalho. Numa cidade como essa, faculdades de jornalismo são imprescindíveis. Sem elas, a qualidade do jornalismo aqui produzido iria a pique rapidamente.
A desregulamentação aprovada pelo STF não pretende acabar com as escolas de comunicação do país, é claro. Mas o jornalismo, que hoje vive uma séria crise devido aos novos meios e formas de se informar, pode perder muito em cidades não tão desenvolvidas. Qualquer pessoa poderá assinar uma matéria em jornal, sem conhecer preceitos básicos da apuração de notícias e coisas do tipo. Conversando com uma amiga, ela argumentou que o fim da necessidade de diploma só iria pesar em lugares onde eu e ela não pretendemos trabalhar. Mas os lugares onde nós não pretendemos trabalhar são os lugares que abrem as portas para entrada dos recém formados no mercado de trabalho, e agora esses lugares estarão apinhados de qualquer pessoa que se preste a escrever de qualquer jeito por um salário qualquer. Os donos dos jornais obviamente não querem qualquer um escrevendo em seus veículos, contudo, com a concorrência desleal entre não formados e formados, ele pode oferecer salários de fome à quem possui diploma, sob o pretexto de que outro pode pegar o seu lugar.
É uma discussão complicada. Entretanto fica claro que a desregulamentação é um retrocesso. Principalmente pois apenas um ou outro estão interessados em discutir novas regras e leis para o funcionamento e contratação de jornalistas. Tenho dúvidas sobre os direitos adquiridos pela classe, como as cinco horas diárias, o que acontecerá com eles?
Todas as vezes em que defendi o fim de faculdades de jornalismo, pensei na possibilidade de melhorar a qualidade da atividade oferecendo cursos às pessoas de outras áreas que se interessassem pelo jornalismo. Por exemplo, um sociólogo que gostaria de escrever sobre política poderia fazer alguma especialização, podendo ser contratado como jornalista sem nenhum problema. Mas ao invés de melhorar a qualificação, acabou-se por retirar qualquer necessidade de uma. A tênue linha entre jornalismo e contar estórias se rompeu de vez.
eu acho que isso não vai dar certo. no meio do caos eles vão ver que fizeram merda, e vão retomar com tudo. e acrescentar umas melhoras.
ResponderExcluirtá, te falei que sou ingênua.
mas de qualquer forma, acho que os jornais e revistas vão deixar algum espaço pros jornalistas, como forma de prestígio, sei lá.