30/06/2009

Mentiras por milhões de dólares

São muitos os críticos que declaram o fim da arte. Alguns, como Arthur Danto, veem nisso o grande salto da manifestação artística, pois agora a arte está em todos os lugares, transfigurando lugares comuns. Outros entendem esse fim como uma morte mesmo, a decadência dos preceitos e valores estéticos. Indiferente a esse pensamentos, acredito que a arte não morreu, mas vulgarizou-se. Mesmo que essa vulgarização signifique poder vender um objeto artístico por 12 milhões de doletas. Estou pensando nos "grandes" artistas plásticos do nosso tempo, os famigerados Damien Hirst, Beatriz Milhazes e Romero Brito, entre outros. Esses nomes me chamam a atenção por dois motivos: a popularidade de seus nomes e a falta de propostas estéticas que suas obras explicitam.

Não entendo muito bem o que as pessoas veem nesses engôdos de arte contemporânea tão superficiais quando a tigela de leite dos gatos, não os meus, claro. Hoje assisti a uma discussão sobre o trabalho de Brito. Descobri que ao seu nome estão ligados movimentos como o cubismo e a pop art. Picasso e Lichtenstein se reviram no túmulo. Acho a arte de Romero Brito tão inócua quanto a de Beatriz Milhazes, com suas colagens ultra coloridas e senseless, assim como os tubarões e caveiras de Hirst. A vulgaridade de suas obras é um anúncio do fim e o culto popular que se criou sobre esses nomes o atestado de óbito.


Sei que devo parecer elitista, mas não, não é isso. Muito pelo contrário, acho absurdo os valores pagos por obras desses artistas plásticos que não significam nada na perspectiva da história da arte. Na Carta Capital dessa semana, Mino Carta assinou um artigo sobre a fraude contemporânea da arte e da culinária molecular. Concordo com ele em alguns aspectos, como a crítica feita à Hirst, mas não concordo quando o autor propõe uma comparação entre o realista inglês William Turner e o contemporâneo Mark Rothko. O período que os separa torna a comparação vazia de qualquer sentido prático ou mesmo teórico. Entre o que havia de mais instigante na arte contemporânea, se encontravam artísticas como Rothko que apontavam os questionamentos conceituais e estéticos da pintura. Enquanto as artes renascentistas eram dotades de esmero técnico, as artes de meados do século XX possuiam esmero intelectual que não pode ser deixado de lado. Essa arte questionadora, surgida com o dadá de Duchamp e Tzara, chegou ao Brasil e deu grandes frutos como Oiticica, Lígia Clark, entre muitos outros.

Contudo, essa silly art produzida atualmente e vendida a preços escabrosos não possui nada de novo, não pretende revolucionar, questionar, nada. É feita para ser bonitinha e vendida a altos preços em um mercado de luxo. Romero Brito, Beatriz Milhazes, Damien Hirst e tantos outros, para mim, não fazem arte. São o mais puro exemplo de como o kitsch se apropriou da cultura. O que mais me irrita nisso é querer inserir esses artistas em escolas que, não duvido muito, eles provavelmente não sabem nem ao certo o que são. Se bem que eu acho que a Beatriz fez curso de artes plásticas, não que isso signifique algo, conheço um bom número de acéfalos que estão no curso. De qualquer forma, se ela é abstracionista, Kandinsky e Pollock são bichonas enrustidas.

ps: ainda não tenho uma opinião sobre Vik Muniz, outro popstar da arte contemporânea.

1 comentários:

  1. Prezado autor,

    entendo sua revolta. Romero Brito, no entanto, pode ser considerado um artista pop brasileiro. Quer dizer, nem o Lichtenstein tinha tanta "profundidade", entende? O próprio Warhol era muito criticado por isso (coincidentemente, as críticas pareciam "dor de cotovelo", visto que ele ganhou muita grana). Autores como Greenberg não conseguiam "engolir" a arte pop, mas nem por isso esta deixou de ter valor. Minha única crítica ao Brito, na verdade, é o fato de ter ficado parado no tempo. Encontrou uma fórmula e não mudou mais. Assim a arte torna-se "mala". Beatriz milhazes? Acho a arte dela muito pessoal. Uma característica da arte produzida pela Geração 80. Quer dizer, não seria para todo mundo gostar, e não foi feita para "mudar o mundo", o negócio é que virou "hit" (que nem ela esperava). Algumas coisas encomodam nesse texto: Turner considerado realista (está mais pra Romantismo do que Realismo). Fazer uma ponte entre ele e o Rothko não é "forçar a barra" mesmo. O Turner foi um dos primeiros pintores a se aproximarem de uma arte abstrata. O Rothko é abstrato. No mais, acho válido criticar e questionar a arte contemporânea sim e a especulação nojenta do mercado de arte. Muito bom lembrar do Arthur Danto e a transfiguracnao da arte. Estamos em uma época de transição. Tenho cá pra mim que o Design vai ser, daqui em diante, figura principal na arte.

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