05/10/2009

O veludo azul se abre para o público e então vemos uma figura dourada. A banda está em segundo plano, mas terá um papel importante no desenrolar da performance.

Posando sobre um sofá, Ney de Souza Pereira, fantasiado com roupas douradas, máscara e muitos adornos, iniciou o show “Inclassificáveis”. “O tempo não pára” foi apresentada as milhares de pessoas que prestigiam o local.

No palco, o artista se transforma em uma criatura sem sexo, sem idade, que age apenas em favor de sua arte. Dizer que aquilo que os campo-grandenses presenciaram foi um show é diminuir o tamanho do evento.

Ney interpreta as canções como se fosse um personagem que encarna cada verso. Ele dança, gesticula, troca de roupas, veste colares, fica nu e provoca o público. Encenação mistura-se com verdade. É inclassificável.

O repertório foi extenso e trouxe composições de Cazuza, Pedro Luís, Caetano Veloso, além da inusitada “Veja bem, meu bem” de Marcelo Camelo, que na voz de Ney Matogrosso ganha força incrível. Contestador, o artista brinca com convenções e desconstrói visões engessadas.

Com seu figurino andrógeno, Ney imita o ato sexual e passa despercebido pela platéia. Mais tarde geme como se chegasse ao ápice do coito. Cada vez que tira ou coloca um colar ou até mesmo a pequena sunga, seus gestos são libidinosos e seu rosto se enche de prazer. Aos 68 anos, ele explora seu corpo sem medo.

Mas a sexualidade não é a única forma de provocar a platéia. A interpretação de “Cavaleiro de Aruanda”, com referências a umbanda, é capaz de arrepiar. Essa é a primeira canção apresentada após o artista tirar sua roupa e aparecer diante do público vestindo apenas um macacão transparente, uma pequena sunga dourada, além dos colares e adornos.

Após algumas músicas, Ney canta “Ode aos ratos” e com ela brinca de deus. Ao final da música, uma cruz feita de luz surge no fundo do palco, crucificando o cantor em meio ao êxtase. Ela abre espaço para a música que dá título ao espetáculo, “Inclassificáveis”.

Unido pela primeira vez Ney e Emilio Carrera, integrante do “Secos e Molhados”, grupo em que iniciou sua carreira, a banda é um elemento importante do show. Quase todos os integrantes fazem dueto com o artista. “Inclassificáveis” foi a primeira parceria entre Ney e uma banda de rock.

O Governo do Estado acertou ao trazer alguém do peso de Ney Matogrosso para cantar no aniversário do projeto Canta MS. Quem esteve no parque durante esse domingo, teve uma experiência inesquecível presenciando um dos mais originais artistas brasileiros.

2 comentários:

  1. Linda crônica! Parabéns!Rita.

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  2. Descrição perfeita do que foi o show do Ney, tamanha grandeza "desses artistas" que até hoje me encontro encantada com o show! Parabéns por sua descrição, fico feliz em saber que mais pessoas se encataram e reconheceram a magnificência desse 'espetáculo'!
    Suelen Piuna!

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