
Uma história simples na mão de Charlie Kaufman tem potencial para se tornar facilmente um pesadelo existencial. "Sinédoque, Nova York" poderia ser somente mais um filme sobre um homem de meia idade perdido entre o casamento falido e a carreira produtiva, mas à sombra de outros. Contudo, o roteiro de Kaufman vai além de qualquer clichê e, ao dirigir um filme pela primeira vez, sua sagacidade nos deixa desamparados enquanto o longa ganha contornos absurdos.
Nos primeiros minutos do longa somos apresentados a Caden Cotard, sua mulher e a filha de quatro anos que faz cocô verde, o primeiro contato com o absurdo do filme. O casamento de Cotard chegou ao fim e percebemos isso rapidamente, mas quando a esposa decide não retornar de Berlim após realizar uma exposição na cidade, somos pegos de surpresa. Após esse incidente, o hipocondríaco Caden mergulha na criação de uma peça autoral que seja capaz de demonstrar seu verdadeiro eu. A partir daí, Kaufman pisa no acelerador sem esperar que o espectador o acompanhe.
Sinédoque é uma figura de linguagem na qual o todo é substituído pela parte. Basicamente é isso que Cotard pretende fazer com sua peça em relação a Nova York. Ele quer encenar a cidade dentro de um galpão abandonado. E se esforça para isso por décadas a fio.
Vemos os personagens envelhecer, vemos relacionamentos começarem e terminarem, crianças nascem e são abandonadas. Cotard, sempre transitando entre amores e a solidão, não esquece sua filha. Infelizmente ela já o esqueceu. Talvez seja possível entender o que está se passando com algum auxílio da psicanálise freudiana, mas nunca li nada do autor austríaco.
Cotard tenta colocar ordem no caos que sua vida se tornou por meio da peça que nunca se esgota. Ele quer ser um deus presente e capaz de dar as cartas, mas o trabalho é cansativo. Assim como a vida o engoliu, a peça também o engole e somente nas últimas cenas ele perceberá que a vida é som e fúria, como já dizia o bardo inglês.
A medida que o filme avança, vamos mergulhando na absurda criação de Cotard, mas a realidade parece ir definhando pelo caminho. Em certo momento, uma tal de Ellen surge na peça. Ela parece ser um elemento chave para a compreensão do que acontece, mas não consegui captar isso muito bem. A cena final é belíssima e melancólica, não soube exatamente como reagir ao ver os créditos. Ainda não sei, mas tenho certeza de que "Sinédoque, Nova York" é uma peça rara do cinema atual.
Kaufman produziu uma obra polissêmica e bastante complexa. A obsessão pela morte, o medo da solidão, os problemas e as virtudes do amor, a guerra e a destruição, a família, a castração são temas explícitos do filme, mas as leituras possíveis são muitas. O diretor e roteirista nos oferece uma obra autoral que beira a transgressão e mostra como o cinema ainda pode se reinventar.
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