31/12/2009

Esse ano foi um ano bem louco, mas acho que os dois fatos que mais marcaram foram: a vinda da minha namorada pra cá e o show do Radiohead.

27/12/2009

Entre amores e areia

A inquietante busca pelo que não pode ser encontrado no outro é o que parece movimentar o espetáculo "Amor líquido" da companhia de dança Ginga. Durante menos de quarenta minutos, seis dançarinos se encontram e desencontram no palco, em rápidos esbarrões e beijos angustiados. São casais que se formam e se desfazem, trocam de parceiros, se mesclam e se abandonam, deixando, por vezes, se levar pela solidão do dia a dia.

Como explica o grupo, o nome “Amor Líquido” já existia antes de todos lerem o livro homônimo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, mas quando se descobriu o livro, percebeu-se também a forte relação entre os nomes. O subtítulo do livro também serviria ao espetáculo, “A fragilidade dos laços humanos”. Disso provém a liquidez do amor, da fragilidade com que as relações se criam e se desfazem. E é basicamente o que experimentamos durante o tempo em que ficamos sentados no teatro.

Fluidez é uma palavra que representa bem o que nos é mostrado no palco. Desde a trilha muito bem composta por Jonas Feliz aos corpos dos bailarinos que se desdobram em movimentos aflitos, fluidez é a palavra de ordem. Por sinal, os corpos dos bailarinos muitas vezes me trouxeram a mente quadros do pintor expressionista austríaco Egon Schiele. E nesse ponto, toda fluidez contrasta com a dureza do que nos é mostrado. O desespero que envolve amar e não ser amado ou amar e ser trocado surge com força nas imagens criadas pelos casais dançarinos.

Facilmente se percebe o cuidado de Chico Neller com a composição dos movimentos e a marcação dos bailarinos. Esse é o ponto onde a fluidez se mostra mais presente. Os bailarinos Débora Higa, Gustavo Lorenço, Júlia Aissa, Julio César Floriano, Letícia Torales e Yan Leite Chaparro conseguem dosar a dramaticidade do espetáculo com a leveza de seus movimentos. Mas quando é necessária força, eles também a demonstram.

Entre as artes cênicas, provavelmente a dança desponta como a mais abstrata, mas que isso não se confunda com falta de significado, pois em Amor líquido, o significado surge nas relações entre aquilo que se vê no palco e o que se vê no mundo. A falta de palavras não impede a comunicação entre público e bailarinos. E como em todo objeto de arte contemporânea, essa troca abre espaço para várias interpretações.

*acho que nunca publiquei esse texto aqui.

18/12/2009

Avatar impressiona, mas alguma coisa faltou

Avatar é deslumbrante. Mas também parece uma viagem de ácido. As paisagens são lindas, o mundo criado por James Cameron é vivo, cheio de detalhes e certas cenas do filme são de tirar o fôlego. Mas... Sim, existe um mas em tanta beleza. Mas o roteiro do filme é muito fraco. Li um bom número de pessoas dizendo que Avatar é um filme para toda a família. Tudo bem, apesar de achar que levar uma criança para uma experiência dessas pode causar sérios problemas no cérebro do pequeno. Ser história para toda a família não significa coar o filme de toda e qualquer profundidade.

Vamos lá... Os personagens são fracos e muito estereotipados. Existe o bem, existe o mal, todos muito bem definidos. O maior vilão do filme, Coronel Quaritch parece uma versão fracassada do Coronel Kurtz de Apocalypse Now. O mocinho Jake Sully é tão bobo que fica difícil acreditar que é um fuzileiro naval. Os bichões azuis dão conta do recado, apesar de serem bons demais. Falta um pouco dessa dúvida, desse fator humano nos personagens do filme. Outro ponto problemático do roteiro é o desenvolvimento da ação. As coisas parecem meio intruncadas. Cameron provavelmente queria explorar ao máximo a beleza do mundo que criou, contudo, o filme acabou se alongando demais. Fiquei com a impressão de que algo faltou entre a convocação das outras tribos à guerra e a explosão do conflito.

Ainda assim é um filme que vale ser visto. Um blockbuster de vim de ano, com mensagem positiva e cenas alucinógenas. Afinal, o que são aqueles na'vi de mãos sentados e de mãos dadas, cantando e dando voltas em círculos? Só faltou a xamã distribuir santo daime pra galera. Continuo com meu pé atrás em relação ao cinema 3D, acho que só vai servir a industria de entretenimento e empobrecer ainda mais os filmes comerciais. Não visualmente, mas em conteúdo.