24/05/2010

Aqueles dois

Teatro é palavra. Teatro também é corpo. Em um espaço cênico demarcado por objetos cotidianos - uma televisão ali, um rádio aqui, uma vitrola acolá - quatro atores encenam “Aqueles Dois”, conto homônimo de Caio Fernando Abreu. Corpos e palavras são os principais elementos deste trabalho, que foi encenado em Campo Grande três vezes, durante a 5º Aldeia Sesc Terena de Artes. Assim como a literatura do escritor gaúcho, a encenação é repleta de intimismo, em certos momentos, parece que conhecemos aqueles atores há muito tempo.

Ao se entrar no Teatro Prosa, do Sesc Horto, o ator Odilon Esteves lê trechos do horóscopo de jornais do dia, enquanto Marcelo Souza e Silva, Rômulo Braga e Cláudio Dias, que completam a Cia. Luna Lunera, fazem jogos de cena e utilizam técnicas e contato improvisação, que mais tarde serão melhores exploradas. Desde o início, o contato com a platéia é grande, o que acaba gerando maior sensação de proximidade. Canções e velhos discos de vinil dão o tom da montagem, que traz diversos elementos do universo de Caio Fernando Abreu.

Os quatro atores não representam personagens únicos. Todos assumem as figuras centrais do conto, Saul e Raul, dois homens que se encontram em uma repartição pública. Assim tem início a grande amizade, que levará os colegas a acreditar que ali há uma relação homossexual. A beleza do texto está na sutileza com que o autor brinca com a questão, sem nunca afirmar ou negar as suposições.

Talvez haja um certo exagero no didatismo, com os atores lendo trechos do conto excessivamente, mas isso não atrapalha o quadro geral. No mais, mesmo a cena de nudez completa dos quatro, quando Raul e Saul dividem o quarto e se despem por causa do calor, mostra-se necessária. O espetáculo, dirigido pelos próprios atores ao lado de José Walter Albinati, outro integrante da companhia, foi uma grata surpresa para os palcos de Campo Grande.

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