13/06/2010

O imperador está louco, mas não pelado

Facilmente se percebe que "Calígula", encenado durante esse fim de semana em Campo Grande, não é um grande exemplo das artes cênicas. Seja pelo exagero em certos momentos, quando Thiago Lacerda requebra a coreografia da dança da motinha ou um de seus genéricos, ou pela má utilização de alguns atores, o espetáculo perde sua força em diversos momentos por não conseguir seguir uma linha determinada. Entretanto, ao final da peça, fica-se com uma sensação esquisita: "Mesmo um espetáculo mediano consegue bater grande parte do que é produzido nessa cidade".

"Calígula" nos leva a Roma, inventivamente representada por um guarda-chuva com a inscrição "ROMA", para contar a história do terceiro imperador romano. Estrelada por Thiago Lacerda, que apresenta um ótimo desempenho, menos quando se torna caricato demais, a peça procura retratar a loucura e tirania do jovem imperador. De certo modo consegue, mas o imperador nos parece, por vezes, distante demais. Falta aquela figura que nos insere no drama, com quem nos idenficamos e percebemos que o que acontece ali, poderia acontecer em qualquer outro momento.

O tema é atual, todavia. Tirania, loucura e poder sempre serão temas atuais enquanto o homem for governado por outrem. Ou seja, para sempre. E, reforço, a interpretação lunática de Calígula é um dos pontos altos do espetáculo. Com um ótimo trabalho de corpo e direção, feita por Gabriel Villela, o trabalho tem entre suas características mais interessantes as constantes quebras da ilusão teatral. O ponto mais alto se dá no final do espetáculo, quando um dos personagens é executado a pauladas e a ação cênica é interrompida para o ator seja sujado com sangue por meio de um frasco de desengordurante.

Albert Camus, autor de clássicos como "A peste" ou "O estrangeiro", assina a dramaturgia do espetáculo. Escritor e filósofo existencialista, amigo e inimigo de Jean Paul Sartre, sua interpretação sobre o ser humano não deixa de estar presente na obra. A loucura de Calígula, por sinal, em numerosos momentos é aquilo que nos permite encará-lo como homem e não como um "deus" perdido.

Vale notar que "Calígula" é muito mais lembrado pelo filme de 1979, estrelado por Malcolm McDowell (de Laranja Mecânica), que pelo texto de Camus. Aqui há outro ponto interessante do espetáculo estrelado por Lacerda, que é o retorno ao texto, deixando de lado a sexualidade explícita do filme. Claro, a sexualidade tem seu papel na história, afinal, estamos tratando de luxúria, mas, ao mesmo tempo, a forma que Gabriel Villela encontrou para trazê-la ao palco é bastante inventiva. Vide a cena em que Calígula tortura um dos senadores fazendo-o beber sua urina.

Embora falta identidade ao espetáculo, com certeza, ele é um dos pontos altos da temporada teatral de Campo Grande. Povoada por comédias escrachadas e stand-ups, é muito bom poder assistir a um drama com ares trágicos. Infelizmente, o que é mediano nos grandes centros, aqui atinge um grau muito mais elevado. Faltam-nos outros termos para comparação.

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