Cinema que o Brasil tem!
“Acorda, humanidade!”, assim tem início uma das películas mais anárquicas que assisti nos últimos tempos. “Superoutro”, média-metragem baiano dirigido por Edgar Navarro em 1989, narra a história de um mendigo louco pelas ruas de Salvador, que cansado de uma vida de miséria, decide subverter todas as regras, até mesmo a gravidade. A todo instante, por meio da sátira, o diretor radicaliza com os bons costumes culturais e mergulha na tensão provocada por cenas que fazem uso do grotesto para provocar. Um exemplo? A cena em que o louco protagonista, assistindo ao programa de Sílvio Santos pela vitrine de uma loja, masturba-se enquanto a roleta gira. Não é um filme para estômagos fracos, mas vale a pena por mostrar que experimentações têm lugar no cinema brasileiro.
Alienação e protesto
Vinte anos antes, em 1969, o diretor André Luiz Oliveira, também da Bahia, provocou o Brasil e a ditadura militar com seu “Meteorango kid - Herói intergalático”. O tempo que separa um filme do outro deixa claro que a contracultura não se aquietou em Salvador. Com atores do cinema marginal e alguns Novos Baianos, André criou um longa-metragem que não deixa nada a dever aos clássicos da Nouvelle Vague francesa.
O enredo nos apresenta Lula, um jovem perdido entre os ideais de protesto contra os abusos do poder na época e a família burguesa cheia de moralismo. Na dúvida, o jovem escolhe a alienação e os baseados com os amigos. Dentro de um quartinho, que nos remete a clássica cena de “O Acossado”, de Jean-Luc Godard, as conversas se confundem entre postura política e pura falta do que fazer. Ao final, o jovem enlouquecido é a “estrela” de um programa policial. A narrativa fragmentada impede que se saiba o que é fantasia e o que é realidade, mas, se pensarmos bem, nada disso realmente importa em uma obra de arte.
Da contracultura
É evidente, em ambos os filmes, a influência da Tropicália, o famoso movimento cultural que influenciou fortemente a vanguarda brasileira no final da década de 1960. Os trabalhos de Edgar Navarro e André Luiz Oliveira transpiram subversão e, por esse motivo, passam longe de qualquer proposta de exibição comercial no Brasil. No caso de “Superoutro” isso é justificável, pelo fato de ser um média-metragem com conteúdo muito forte para exibições, mas “Meteorango kid - Herói intergalático” merece um espaço maior na memória cultural dos brasileiros.
As obras fazem parte do acervo da Programadora Brasil, na série Estudos de Linguagem, e foi por meio de um DVD da coleção que entrei em contato com os dois filmes. O interesse pelo cinema underground baiano, mais conhecido como udigrudi, cresceu depois de ver esses pequenos tratados de transgressão e violência. Em uma busca rápida por fóruns na internet, facilmente se localizam outros títulos que parecem ser tão instigantes quanto esses dois, como, por exemplo, “Caveira, my friend”, de Álvaro Guimarães.
“Do avanço econômico/ A moeda número um do Tio Patinhas não é minha/ Um batalhão de cowboys/ Barra a entrada da legião dos super-heróis....”
Caetano Veloso
(Ruído é um espaço voltado para crítica cultural, publicado semanalmente no diário Correio do Estado. Revezo a assinatura com o jornalista Oscar Rocha).
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