23/09/2010

Ruído - 10 de Setembro

Crítica, crítico, críticas

Estou em crise com este ponto da prática jornalística. Pergunto-me se somos capazes de oferecer juízos de valor sobre obras culturais, principalmente às artísticas, como espera-se do crítico – palavra que nasce do grego crinein, significando separar e julgar. Mais ainda, gostaria de saber se o espaço oferecido por periódicos diários é suficiente para a explanação necessária sobre um objeto estético? A inquietação começa pois muitos acreditam que a crítica é apenas um exercício retórico, com o objetivo de oferecer opiniões acerca da arte. Resenha não é crítica.
Lendo “Os problemas da estética”, do filósofo italiano Luigi Pareyson, no qual ele explica que a crítica também faz parte da experiência estética e, portanto, é objeto da especulação filosófica, percebo que a crítica tem uma função muito exata no contexto da arte e exige especialização para ser feita. Embora seja um juízo de valor, para o filósofo, a crítica não é pura opinião, pois abarca questões poéticas – sobre como as obras são construídas – e sobre a finalidade delas – se são concluídas ou não. De certa forma, Pareyson afirma, é o próprio crítico quem estabelece os parâmetros da poética, guiando os artistas em trabalho.
Existem grandes críticos em jornais diários como, por exemplo, Beth Nespoli – crítica de teatro do Estadão – e Marcelo Coelho – da Folha de São Paulo, que assina um livro interessante sobre crítica, “Crítica cultural: teoria e prática”. Ao meu ver, o jornalista que faz crítica precisa estar ligado às tendências acadêmicas, pois, de certa forma, o que fazemos é um trabalho de diluição do que é pensado sobre arte nas universidades. Para tanto, é necessário se especializar, pois é impossível cobrir um mundo de assuntos cada vez mais complexos. Infelizmente, não vejo isso acontecer.

Para ler e conhecer
Com a internet, o exercício da crítica se espalhou por todos os cantos. São blogs, sites e revistas on-line voltadas para o trabalho de análise e julgamento de obras artísticas e culturais. Sobre teatro, existe um espaço bastante interessante desenvolvido por alunos da Escola de Comunicação e Arte (Eca) da Universidade de São Paulo, a Bacante (www.bacante.com.br). Nela, o interessante é que existe referencial teórico para se falar dos inúmeros espetáculos teatrais criticados. Embora grande parte dos que assinam os trabalhos sejam alunos, os textos buscam referências em autores de ponta para explicar o fenômeno teatral e seu papel enquanto arte. Vale a pena.
Para quem busca a ação de separar e julgar sobre o cinema, uma dica é a revista on-line Cinética (www.revistacinetica.com.br). O texto é acessível, assim como o de Bacante, àqueles que não são iniciados no universo da arte cinematográfica e podem oferecer os primeiros passos para uma fruição diferenciada do cinema. Lembrando que o trabalho do crítico não é dizer se tal obra é boa ou ruim, julgamento um tanto simplista, mas oferecer relações propostas pela obra e desnudar suas estruturas, o que os críticos da revista é bastante interessante. Quem assistiu “Ervas daninhas”, de Alain Resnais, encontra no texto de Francis Vogner dos Reis certa iluminação para entender, mais que o filme, o universo do diretor francês.

C’est fini
Em julho deste ano, durante a Bienal de Teatro de Mato Grosso do Sul, o pesquisador teatral José Fernando Azevedo, da Companhia Teatro dos Narradores, veio a Campo Grande ministrar uma oficina sobre crítica. Provavelmente, ele é o responsável pelas minhocas que tomaram conta da minha mente. Foi ele também quem ofereceu uma distinção muito importante para o exercício crítico, aquela que coloca de um lado a interpretação e de outro o comentário. Enquanto a primeira diz respeito a opinião, a segunda é um exercício teórico que pretende desnudar o objeto estético e mostrar as relações que nele se desenvolvem. Para isso, não basta apenas querer dizer algo, mas conhecer a fundo aquilo que se analisa.

“Está chovendo fogo/
E as ruas estão queimando/
Todo mundo assistindo/
A gente desmilinguindo/
Nosso sangue derretendo/
Junto com o mundo que vai se acabando”
(Karina Buhr)

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