23/09/2010

Ruído - 27 de agosto

Um pouco sobre contos
O conto é, basicamente, uma forma narrativa em tamanho menor que o romance ou a novela. Extensão diminuta, não significa facilidade na escrita. Há escritores que temem os contos por serem formas condensadas de literatura. Nomes como Edgar Allan Poe e Jorge Luis Borges, ou Daltan Trevisan e Caio Fernando Abreu, para me ater aos brasileiros, fizeram fama com as pequenas narrativas e, embora, um ou outro tenha escrito romances, não foram esses que os fizeram emplacar.
Durante muito tempo, resisti aos contos por acreditar que não seriam tão prazerosos como a leitura de um catatau de mais de 500 páginas. Mas, um dia, assistindo televisão de madrugada, me deparei com o Antônio Abujamra lendo “Conto de verão nº 2: Bandeira branca” e fiquei embasbacado com a sutileza com que Luís Fernando Verissimo conduziu a história de Píndaro e Janice, dois personagens que se conhecem em bailes de carnaval na infância e logo descobrem o que são os tais amores de verão. Assim como essa, outras histórias curtas vem a mente sempre que penso em literatura de qualidade, nas próximas linhas, falarei sobre algumas delas.

“Prefiguração de Lalo Cura” – Roberto Bolaño
Em seu livro de contos, “Putas assassinas”, o autor chileno, morto em 2003, nos apresenta pequenas histórias sobre personagens marginais. Entre eles, o que mais me chamou a atenção foi Olegário Cura, o Lalo, do conto cujo o título está acima. Filho de uma atriz pornô, Lalo afirma logo no início da história: “A trilha de entrada ou saída do inferno. A isso tudo se reduz. Aproximar-se ou afastar-se do inferno. Eu, por exemplo, mandei matar. Dei os melhores presentes de aniversário. Financiei projetos faraônicos. Abri os olhos na escuridão”.
Somente essas linhas valem mais que boa parte dos livros publicados anualmente, mas a história segue e o personagem nos conta sua história, na qual busca vingança contra aqueles que “atuaram” junto a sua mãe. O texto é pesado, embora irônico, e, assim como os outros contos do livro, termina de forma abrupta, diante de um possível clímax. Bolaño sabe lapidar a história e nos guiar por um submundo asqueroso com facilidade. Vale a pena ser lido e relido, assim como grande parte das outras histórias de “Putas assassinas”.

“A aventura de um esposo e uma esposa” – Ítalo Calvino
O escritor italiano é um mestre nas narrativas curtas e “Amores difíceis”, publicado em 1970, não poderia ser diferente. O conto em questão chama a atenção pela forma como o autor orquestra os encontros e desencontros do casal formado pelo operário Arturo Massolari e Elide. Em razão dos trabalhos, os dois tem poucos momentos juntos. Ele trabalha a noite inteira e chega em casa ao amanhecer “um pouco antes, às vezes um pouco depois de tocar o despertador da mulher”. Ela saia de manhã, logo depois que Arturo chegava.
Por meio desse jogo, Calvino cria belos momentos como o seguinte trecho: “Elide ia para a cama apagava a luz. De seu próprio lado, deitava, espichava um pé em direção ao lugar do marido, para procurar o calor dele, mas toda vez reparava que onde ela dormia era mais quente, sinal de que Arturo também havia dormido ali, e isso despertava nela uma grande ternura”. É um conto descompromissado, leve e curto, são três ou quatro páginas apenas, mas a história é saborosa.

Algumas palavras sobre teatro
No último final de semana, o Teatro Glauce Rocha recebeu o espetáculo “Cândida”, baseado no texto do, entre outras coisas, dramaturgo inglês George Bernard Shaw. Dirigido por Zé Henrique de Paula e com Bia Seidl no papel principal, a peça se inscreve em uma chave realista que passa longe do que se sugere com o nome do grupo paulistano Núcleo Experimental, que concebeu o projeto. As discussões sobre crise da representação e a busca pela teatralidade na cena parecem ter passado longe dos encenadores, que apostam no texto decorado e na ilusão teatral. Embora o texto original trate de temas como casamento, amor e masculinidade com extrema elegância, o que vemos em cena é conservador e ultrapassado. Falta atualidade ao que está sendo apresentando, tanto na forma, quanto no tratamento dado ao conteúdo. De qualquer modo, é interessante ter oportunidade de assistir espetáculos como este em Campo Grande, que parece se fortalecer seu circuito teatral.

“O nosso amor é tão bom/
O horário é que nunca combina/
Eu sou funcionário/
Ela é dançarina/
Quando pego o ponto/
Ela termina” (Chico Buarque)

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