Desenhos e balões
No começo deste mês, decidi voltar a ler histórias em quadrinhos. As edições nacionais de Vertigo, segmento mais dark da DC Comics, me fez voltar para este mundo de nerdices. Durante a adolescência li muita coisa, mas como no Brasil, pelo menos até a Conrad, a Panini e o caso a parte que sempre foi a Devir, ninguém nunca teve muito respeito por HQ’s, acabei abandonando o hábito. Prova máxima do descaso eram as edições, publicadas pela Abril, em “formatinho”. Eram revistas em 13x21 cm, que espremiam os desenhos feitos originalmente 17x26 cm, tudo pela economia. Parece que essa diferença de cinco centrímetros não é nada, mas eles fazem toda a diferença. Basta comparar.
O fato é que entramos em um novo momento, no qual as graphic novels foram descobertas por grandes editoras como a Companhia das Letras e as edições mensais de HQ’s como X-men, Batman ou Liga da Justiça recebem o tratamento adequado. Talvez, um dos grandes responsáveis pela retomada da arte sequencial tenha sido o mangá, tradicional história em quadrinhos japonesa, que se tornou febre entre os jovens adolescentes brasileiros com narrativas recheadas de espadas, demônios e violência. Nunca me convenceu, mas aqueceu o mercado e trouxe os quadrinhos de volta para o jogo dos produtos culturais. A seguir, algumas das melhores histórias que já li.
“10 pãezinhos: Crítica” – Fábio Moon e Gabriel Bá
Eles se tornaram os queridinhos do público mundial, produziram histórias para editoras americanas, italianas e espanholas, mas o começo foi difícil, com vendas em bares e festas de um zine caseiro chamado “10 pãezinhos”. Já conhecia um pouco do trabalho desses dois irmãos paulistas, mas quando reuniram 10 histórias neste livro editado pela Devir, pude mergulhar nas narrativas que tratam de inseguranças, alegrias, amores e tristezas. O recorte é sempre pessoal e intimista. São pequenos contos que retratam as histórias vividas ou sonhadas pelos dois artistas plásticos, sempre ao redor de temas singelos. Vale a pena conferir! Principalmente se você acredita que quadrinhos são apenas sobre super-heróis que usam cuecas por cima do uniforme.
“Sandman: Estação das brumas” – Neil Gaiman
A história de Morpheus, o senhor dos sonhos, mistura mitologia cristã, hindu, zoroatra, entre outras, com rock n’ roll, cultura pop, lendas urbanas americanas, dilemas existenciais, e tudo o mais que aparecer pela frente. É, provavelmente, um dos maiores marcos na epopéia das HQs. Publicada pela já citada Vertigo, as histórias vão além de tudo que se imagina e promovem desde encontros shakeaspereanos a batalhas entre anjos e demônios. Em “Estação das brumas”, Lúcifer decide que o inferno lhe cansou e o abandona, entregando a chave nas mãos do senhor dos sonhos. Tudo começa após uma reunião entre irmãos, na qual Sandman se vê obrigado a retornar ao inferno e pedir a libertação de uma antiga paixão. Outro ponto positivo da série são as capas, feitas pelo artista plástico Dave Mckean.
“O espinafre de Yukiko” – Frédéric Boilet
Franceses gostam de inventar moda. Não é diferente com Boilet, mangaká (ou desenhista de quadrinhos japoneses). Em vez de samurais e espadachins assassinos, ele decidiu ilustrar as páginas de suas histórias com seu cotidiano, seus amores e sexo. Ele próprio é o personagem central, que se apaixona por uma jovem japonesa chamada Yukiko. Deu o nome de “nouvelle mangá”, em referência ao movimento cinematográfico francês que preferia obras pessoais e intimistas. O resultado é uma narrativa leve, erótica e cheia de bons momentos. Os planos escolhidos pelo desenhista lembram os cinematográficos, com um desenvolvimento suave. A primeira vista é uma história em que nada acontece, mas são as nuances que dão beleza a essa pequena obra-prima.
“Como eu me defendo desse sentimento de inadequação/
Que me destrói por dentro, pro qual eu não vejo explicação?/
Bandeira a meio mastro, um afago áspero, a voz do cantor/
Eu criei um certo faro para esse tipo de enganador” (Jair Naves)
0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo comentário!