12/10/2010

Ruído - 30 de setembro

Uma antiga nova onda

Um cineasta francês me fez acreditar que é possível filmar, mesmo em tempos tecnológicos de 3D e Imax, com beleza, charme e simplicidae, sem ser superficial, as histórias mais cotidianas. O nome em questão é Christophe Honoré, que estreou nos cinemas há dez anos, e rapidamente conseguiu imprimir em suas películas aquele ar típico dos filmes da Nouvelle Vague – movimento cinematográfico francês que reuniu nomes como Jean Luc-Godard, François Truffaut e Eric Rohmer, tendo forte influência sobre o cinema novo e o cinema marginal brasileiros. Quero chamar a atenção para três pequenas obras-primas do diretor, produzidas entre 2006 e 2008, que podem ser reunidos sob a alcunha de trilogia.

“Dans Paris”
Certos temas que serão melhor explorados nos longas posteriores nascem nesse “Em Paris”, lançado em 2006, principalmente a questão da perda. A impossibilidade de se lidar com o fim de uma grande paixão, a busca pelo alívio de todas as tensões no suicídio, as relações entre pessoas que se amam sem saber direito como demonstrar, tudo está ali. Até mesmo a homossexualidade latente, potencializada pela forma erótica que Honoré tem de conduzir a câmera e os corpos, aparecem neste longa-metragem.
A história do melancólico Paul (Romain Duris) e do vivaz Jonathan (Louis Garrel), irmãos que voltam a conviver depois que o primeiro é deixado pela mulher, é marcada pelo contraste entre ambos. Entretanto, eles têm em comum o fato da irmã mais nova ter se suicidado. Garrel, que retornará nos próximos dois filmes, assume aqui a figura do personagem coadjuvante que pode apenas narrar os fatos diretamente ao espectador, enquanto Duris é o homem deprimido pela perda que não sabe como se tornar inteiro outra vez.
Os dois passam a maior parte do tempo distantes um do outro, mas dialogam por meio das cenas. Garrel vai a Paris e encontra mulheres por quem se apaixona durante segundos e vive rápidas relações e o irmão, por outro lado, só encontra conforto ao lado da mãe que o visita por um breve instante. Embora seja uma história triste, a leveza com que Honoré a conduz, dá esperança ao filme. E o encontro entre Paul e Jonathan, ao final do filme, é tão belo que toda melancolia é esmagada.

“Les Chansons D’Amour”
Honoré tem uma fixação pelo canto em seus filmes, mas é nesse que ele radicaliza e filma um musical com canções de amor. O que em outros filmes rompe com a ilusão cinematográfica aqui se torna a tônica dos relacionamentos. Ismaël (Garrel, novamente) e sua namorada, Julie (Ludivine Sagnier), formam com Alice (Clotilde Hesme) um triângulo amoroso que será abalado pela morte da personagem interpretada por Sagnier. A partir dessa perda, o protagonista busca algo que lhe dê sentido.
Em determinado momento do filme, Alice aparece lendo “Politics”, do inglês Adam Thirlwell, no qual o autor afirma que o problema de um triângulo amoroso é que alguém sempre fica de fora. Mesmo com a morte de Julie, é Alice quem é deixada de fora, pois nunca conseguirá adentrar no espaço deixado vazio pela morte repentina da namorada de Ismaël. O filme é dividido em três partes: “A partida”, “A ausência” e “O retorno”. Esse é o caminho percorrido pelo protagonista, até encontrar Erwann, um jovem universitário, em quem Ismaël encontra uma forma de retornar a vida.

“La Belle Personne”
Talvez o mais belo dos três filmes (e o meu favorito). É em “A bela Junie”, de 2008, que o diretor francês acerta a mão e ordena todos os temas que apareceram de forma sútil nos outros filmes. As paixões da juventude aqui adquirem força e mostram que podem ser mais cruéis que em qualquer outra idade. A personagem central, interpretada por Léa Seydoux, após a morte da mãe, chega ao novo colégio e, embora o ambiente seja hostil, é logo acolhida pelos jovens. É por meio dos jogos entre os personagens que a história se desenrola, tudo é bem orquestrado e todos os personagens centrais acabam tendo relevância.
Logo surge, mais uma vez, um triângulo envolvendo o professor de italiano Nemours (Garrel!), que vê na menina seu objeto de desejo, e o jovem Otto. A descoberta dos desejos homossexuais também aparecem na figura de Matias, primo de Junie, que se apaixona por um colega. Mas o centro da história é Junie, que embora tenha encontrado um grande amor em Nemours, se vê dividida entre buscar a felicidade ou descartá-la por saber que ela é passageira. Entretanto, sem saber escolher, ela também descarta o outro e resta ao apaixando Otto vagar em busca de outra paixão, ao que o jovem se nega. A morte é sua escolha. O que Honoré quer dizer, talvez, seja que diante do absurdo temos que escolher entre paixões efêmeras que nos mantêm vivos ou aceitar sua impossibolidade.
Honoré, como afirma o crítico Rodrigo de Oliveira, é um “parasita do bom cinema que o antecede, gênio dos pequenos atos e das grandes emoções, esteta do coração contemporâneo”. Resta-nos esperar por seus dois novos filmes, “Non ma fille, tu n’iras pas danser”, de 2009, e “Homme au bain”, que estreiou este ano. Ambos continuam sem previsão de estreia por aqui.

“Ah vai, me diz o que é o sossego/
Que eu te mostro alguém afim de te acompanhar/
E se o tempo for te levar/
Eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar” (Rodrigo Amarante)

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