29/12/2010

you're my playground love

Cinco jovens que vemos, mas não conhecemos. Ela vão morrer como o nome do filme já entrega logo de início. Não saberemos o motivo, mas junto com o narrador que as conheceu 25 anos antes, juntamos cada peça. Detalhes, sorrisos, comportamentos, olhares, ações, tudo surge como pista para que o espectador entenda o motivo do desfecho trágico de “As virgens suicídas”, primeiro filme de Sofia Coppola, lançado em 1999. A lógica por trás do filme é a do voyeur. Tanto nós, quanto os garotos que moram na rua das cinco meninas Lisbon, vemos o cotidiano das garotas de forma distanciada, sem nunca participar do jogo, mas sempre tentando compreendê-lo.
O cenário é uma área suburbana, povoada por figuras de classe média, em um cidade qualquer dos Estados Unidos, em meados de 1975. O mundo criado por Coppola é inabalável. Nada entra, nada saí. Não existem ecos de um mundo exterior. Assim como as meninas acabam confinadas na casa dos pais, estamos confinados às paisagens cheias de casas iguais, grama aparada e árvores doentes. Quando Cecília, a primeira e mais jovem, tenta se matar, percebemos logo que estamos diante de uma figura complexa. Talvez, a mais complexa de todas as meninas, mesmo que ela não permaneca na história por mais de 20 minutos.
Se o suicídio é uma das respostas quando se confronta o absurdo da existência, assim como Camus acredita, Cecília constata este absurdo cedo. Ela não se mata por amor ou por medo, ela acaba com a própria vida por desgosto. Como afirma ao médico que a atende, “ele nunca foi uma menina de 13 anos”. A medida que o filme avança, o desinteresse da adolescente pelo que a cerca cresce. Até que ela vislumbra quão patéticas são as pessoas que lhe são próximas. Minutos depois, ruídos de uma grade de ferro e a cena da jovem nos braços de seu pai, um professor de matemática meio lunático.
Infelizmente, as outras personagens – nem mesmo a protagonista Lux Lisbon (interpretada por Kirsten Dunst) – tem a profundidade de Cecília. Mas, a seu modo, também são fascinantes. Após o universo da família Lisbon ser desequilibrado pelo acontecimento, a paz é retomada. A chegada de Trip Fontaine, o jovem rebelde, coloca o mundo em xeque outra vez, forçando mudanças que acabam preparando o anti-clímax final. Ao serem trancafiadas em casa pelos pais, a única ligação com o mundo são os garotos que as observam. Esta é a única vez em que somos convidades a participar do cotidiano das cinco meninas. Em tardes vazias, os garotos e elas ouvem músicas pelo telefone e tentam estabelecer uma comunicação sem palavras.
Ao contrário do livro, as meninas se matam de uma vez na noite em que decidem fugir com os garotos voyeurs. A amálgama de erotismo e inocência que é Lux é a última das meninas que vemos em cena. Também é a última que vemos morta. Contudo, o universo suburbano no qual o filme acontece, que não aceita muito bem as mudanças, consegue expelir as lembranças e fazer com que tudo retome seu curso. As festas e as brincadeiras juvenis continuam. Mas a casa da família Lisbon segue vazia, quase esquecida, se não fosse pelos jovens garotos que mesmo 25 anos depois, não a esqueceram.
Enquanto se espera pelo último filme da diretora, "Somewhere", que estreou no Brasil durante a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vale a pena rever esta pequena obra-prima criada por Coppola. Fazendo jus ao nome da família, a diretora consegue unir elementos que vão de uma ótima trilha sonora composta pelo duo francês Air à fotografia de Edward Lachman, além de ótima direção de arte, resgatando a atmosfera retrô que o filme pede.

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