07/06/2011

Ruído 03 de junho

Imagem e semelhança
A mercadoria nasce para se tornar imagem. Este seria o estágio final do fetichismo contemporâneo. Na “Sociedade do espetáculo”, definida pelo filósofo situacionista francês Guy Debord, a imagem é a forma última de ideologia. A relação entre experiência e vida deixa de ser efetiva, pois tudo passa a ser mediado por representações. No livro publicado em 1967, o escritor define: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”. A experiência de vida não é direta, mas mediada por representações. Desde Platão o problema da representação vem sendo discutido de inúmeras maneiras. Mas aliado ao consumo, a produção de imagens na sociedade ganha um novo espaço. Um espaço de risco. Os novos ídolos não são de ouro e pedras nobres, mas de ondas eletromagnéticas e luz. Debord afirma que nessa nova sociedade a discussão não é entre ser e ter, mas entre ter e parecer.

Imagem e semelhança II
Quero falar sobre dois fenômenos da cultura atual. Um internacional. Outro nacional. Ambos tem em comum a existência por meio da imagem. Puro espetáculo, nova forma de consumo. Ontem assisti uma entrevista com a cantora pop Lady Gaga. Ela está lançando o novo álbum “Born this way”. O que menos importa são seus talentos musicais. Lady Gaga é uma imagem para ser comercializada, consumida e esquecida daqui alguns anos. “Onde o mundo real se converte em simples imagens, estas simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes típicas de um comportamento hipnótico”, escreve Debord. Preste atenção no que ela é. Uma mulher de comportamento esquizofrênico que proclama ser a rainha dos excluídos. Embora seja apenas uma imagem, os limites entre real e representação se confundem entre Lady Gaga e Stefani. Felizmente, a imagem criada pela cantora ainda conserva um papel subversivo ao chamar a atenção àqueles que são deixado de fora da sociedade.

Imagem e semelhança III
“O espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa”, lembrará Debord. Ou seja, as imagens são matéria de culto. Se você não cria imagens, você não pode se tornar deus. Ao meu ver, a música pop brasileira levou isso ao pé da letra. Mas gostaria de chamar a atenção para um nicho em particular. A nova onda de música sertaneja. Luan Santana, Paula Fernandes, Munhoz e Mariano, Maria Cecília e Rodolfo, entre outros tantos nomes. Mal gravaram os primeiros álbuns, quando não os gravaram ao vivo, e já partiram para a produção do DVD. Por quê? Eles entenderam, mesmo sem ler Debord, que o espetáculo é o destino do consumo contemporâneo. Ao contrário de Lady Gaga, a imagem que criam não é contestadora. Cabelos alinhados, roupas limpas, efeitos especiais inofensivos e uma mensagem positiva. O espetáculo sertanejo é consumo e é careta.

Imagem e semelhança IV
Diante da desenfreada produção de imagens, as artes visuais podem reproduzir espetáculos ou contestá-los. Prefiro aqueles que contestam. Um nome me chama a atenção: Robert Wilson. Diretor teatral e videoartista, ele trouxe para o Brasil a série “Videoportraits”. Unindo vídeo, fotografia, literatura e som, Bob criou imagens de figuras que habitam o panteão dos espetáculos. Brad Pitt, Johnny Depp, Princesa Caroline de Mônaco, Steve Buscemi, entre outros. Contudo, por meio da irônia, o artista descontrói os mitos que rodeiam os famosos nomes. Infelizmente, a mostra passou longe de Campo Grande, mas no Youtube é possível encontrar alguns retratos. “La solitude est une condition nécessaire de la liberté” surge sobre o rosto do escritor chinês Gao Xingjian, em um dos mais interessantes vídeo-retratos.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário!